A construção do objeto

29nov09

BOURDIEU, Pierre;  CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude.  A construção do objeto. In: BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude.  Ofício de sociólogo: Metodologia da pesquisa na sociologia. Petrópolis: Ed. Vozes, 2004,    (p.45-72).

2. O fato é construído: as formas da demissão empirista

Temos o direito de ver no princípio durkheimiano segundo o qual “é necessário tratar os fatos sociais como coisas” ( a ênfase deve ser colocada em “tratar como”) o equivalente específico do golpe de estado teórico pelo qual Galileu constitui o objeto da física moderna como sistema de relações quantificáveis, ou da decisão de método pela qual Saussure cria a linguística e seu objeto estabelecendo a distinção entre lingua e palavra: é, com efeito, uma distinção semelhante que Durkheim formula quando, explicitando completamente a significação epistemológica da regra cardial de seu método, afirma que nenhuma das regras implícitas que se impõem aos sujeitos sociais “volta a se encontrar inteiramente nas aplicações levadas a efeito pelos particulares,  já que podem até mesmo existir sem serem realmente aplicadas”. O segundo prefácio de sua obras As regras do método sociológico diz com suficiente clareza, que se trata de definir uma atitude mental, e não de atribuir ao objeto um estatuto ontológico.  46 (grifo meu)

nada se opõe mais às evidências do senso comum do que a distinção entre o objeto “real”, pré-construido pela percepção, e o objeto da ciência, como sistema de relações construídas propositalmente. 46

É a formação de sistemas conceituais dotados de pertinência teórica que está em ação no progresso científico: semelhantes formulações exigem a invenção a invenção teórica que não poderia limitar-se ao imperativo empirista ou operacionalista da pertinência empíra” (C.G. Hemplel, Fudamentals of  Concept Formation in Empirical Research, University of Chicago Press, Chicago, Londres, 1952, p. 47)  48 (nota 8, grifo meu)

Por mais parcial e parcelar que que seja um objeto de pesquisa, só pode ser definido e ‘construído’ em função de uma problemática teórica que permita submeter a uma interrogação sistemática os aspectos da realidade colocados em relação entre si pela questão que lhes é formulada. 48 (grifo meu)

2.1. “As abdicações do empirismo”

Com efeito, quando o sociólogo pretende tirar dos fatos a problemática e os conceitos teóricos que lhe permitam construir e analisar tais fatos, corre sempre o risco de se limitar ao que é afirmado por seus informadores. 50

Sem dúvida, pode-se e deve-se coletar os mais irreais discursos, mas com a condição de ver neles, não a explicação do comportamento, mas um aspecto do comportamento a ser explicado. 51-52

Sempre que acredita eludir a tarefa de construir os fatos em função de uma problemática teórica, o sociológo submete-se a uma construção que se ignora como tal, coletando no máximo discursos fictícios forjados pelos sujeitos para enfrentarem a situação de pesquisa e responderem a questões artificiais, ou ainda, ao artifício por excelência da ausência de questões. Portanto, ao renunciar ao seu privilégio epistemológico, o sociólogo estará sancionando uma sociologia espontânea. 52

2.2 Hipóteses ou pressupostos

Quanto menos consciente for a teoria implícita em determinada prática – teoria do conhecimento do objeto e teoria do objeto – maiores serão as possibilidades de que ela seja mal controlada, portanto, mal ajustada ao objeto em susa especificidade. 53

2.3  A falsa neutralidade das técnicas: objeto construído ou artefato

[comenta características da observação etnográfica comparada à entrevista não-diretiva] …não será por que se apresenta como a realização paradigmática da neutralidade na observação que, entre todas as técnicas de coleta de dados, a entrevista não-diretiva é tão frequentemente exaltada, em detrimento, por exemplo, da observação etnográfica que, ao estar equipada com as regras impositivas de sua tradição, realiza mais completamente o ideal do inventáro sistemático, operado em uma situação real? 55 (grifo meu)

[toma como exemplo a  observação etnográfica para mostrar a limitação das práticas rotineiras da sociologia em apreender o social em seu acontecimento cotidiano] A observação etnográfica, que é para a experimentação social oque a observação dos animais em meio natural é para a experimentação em laboratório, faz sentir o caráter fictício e forçado da maior parte das situações sociais criadas por um exercício rotineiro da sociologia que é levado tanto mais a ignorar a “reação no laboratório”, quanto está limitado ao conhecimento do laboratório e dos instrumentos de laboratório, testes ou questionários. 55 (grifo meu)

é pelo poder de ruptura e pelo poder de generalização, sendo que os dois são inseparáveis, que o modelo teórico é reconhecido: como depuração formal das relações entre as relações que definem os objetos construídos… 71  (grifo meu)

só é possível nos libertarmos das pré construções da linguagem, quer se trate da linguagem do cientista ou da linguagem de seu objeto, ao instaurarmos a dialética que leva às construções adequadas pelo confronto metódico de dois sistemas de pré-construções[C. Lévi-Strauss, M. Mauss, B. Malinovski, textos nº 28, 29, 30]  58 (grifo meu)

para saber estabelecer um questionário e saber o que fazer com os fatos que ele produz, é necessário saber o que faz o questionário, isto é, entre outras coisas, o que não pode fazer. 59

observação do tipo etnográfico como inventário sistemático de atos e objetos cultuarais. 59

os metodólogos […] ao transformarem a medição na medida de todas as coisas e as técnicas de medição na medida de toda a técnica […] excluem a questão propriamente epistemológica das relações entre os métodos da etnologia e os da sociologia.  60

[afirma que os métodos da etnologia podem ser empregados às sociedades modernas, desde que submetidos a...] nada impede de aplicar os métodos da etnologia às sociedades modernas, com a condição de submeter, em cada caso, à reflexão epistemológica os pressupostos implícitos de tais métodos relativos à estrutura da sociedade e à lógica de suas transformações.  60 (grifo meu)

Até mesmo as operações mais elementares e, na aparência, as mais automáticas do tratamento da informação implicam escolhas epistemológicas e mesmo uma teoria do objeto. 60

A demissão pura e simples diante do dado de uma prática que reduz o elenco de hipóteses a uma série de antecipações fragmentárias e passivas leva às manipulações cegas de uma técnica que engendra automaticamente artefatos, construções vergonhosas que são a caricatura do fato construído metódica e conscientemente, isto é, cientificamente. 63-64

Ao recusar-se a ser o sujeito científico de sua sociologia, o sociólogo positivista dedica-se, salvo milagre do inconsciente, a fazer uma sociologia sem objeto científico. 64 (grifo meu)

2.4 a analogia e a construção das hipóteses

[tipo ideal em Weber, construção concebida para se medir em relação ao real... 66]

2.5 Modelo e teoria

modelo [é] todo sistema de relações entre propriedades selecionadas, abstratas e simplificadas, construído conscientemente com a finalidade de descrição, explicação ou previsão e, por conseguinte, plenamente controlável; 68

Considerando que é possível perguntar seja lá o que for a quem quer que seja e que todo sujeito tem quase sempre suficiente boa vontade para responder, no mínimo, qualquer coisa a qualquer pergunta, mesmo que esta seja irreal, o questionador que, por falta de uma teoria do questionário, não se interrroga sobre a significação específica de suas perguntas, corre o risco de encontrar facilmente uma garantia do realismo de suas perguntas na realidade das respostas recebidas.  56 (grifo meu)



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